letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
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Jan 10
publicado por RAA, às 19:07link do post
Levantado do Chão, de José Saramago (1980)

O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e, apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos.

[Da 4.ª edição, Editorial Caminho, Lisboa, 1983. Foi o meu primeiro contacto com os romance de Saramago, continuado por alguns anos, depois interrompido e agora retomado, espero. Deu-mo o meu pai, em Novembro de 1983.]

Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio (1944)
A SERPENTE CEGA
-- Mas não voltas mais cedo...
João garcia garantiu que sim, que voltava.
Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora. Era fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes. Baixou-os um instante e tornou:
-- Quem sabe?...
-- Demoro-me pouco... palavra! Cursos de milicianos... Moeda fraca! Para a infantaria, três meses. Senão fecharem os concursos para secretários-gerais, então aproveito. Bem sei que há só três vagas e mais de cem bacharéis à boa vida... Mas não tenho medo das provas. Bastam algumas semanas para me preparar a fundo... rever a legislação.
[da colecção "Unibolso", dos Editores Associados, Lisboa, s. d. O melhor romance português desde que existe romance português? Arriscaria... A Margarida Clark Dulmo é a minha heroína de ficção preferida. Comprei-o em Março de 1990]
Memórias da Grande Guerra, de Jaime Cortesão (1919)
O GÉNIO DO POVO
Março de 1916
Mazina, Kuangar, Naulila... Nomes que soam como bofetadas.
depois hesita-se, dispute-se, combate-se. Já a face arrefece. Alguns querem mesmo oferecer a outra. mais um passo: requisitam-se os navios... E a hora grande bateu: estala a declaração da Alemanha.
Na Câmara a sala, de pé, desde as carteiras até às galerias, ao formigueiro humano, delira e aclama com uma só boca: Viva a República! Viva a guerra!
[das «Obras Completas de Jaime Cortesão», Lisboa, Livros Horizonte, 1969. Um livro espantoso. Cortesão, que viria a ser uma das grandes figuras da História de Portugal, ofereceu-se, enquanto médico, como voluntário para as trincheiras da Flandres. Dessa experiência surgiu este relato impressionante. Comprei-o em Novembro de 1989]

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