letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
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Jul 09
publicado por RAA, às 20:14link do post | comentar
Assis Esperança, Trinta Dinheiros, Guimarães Editores, Lisboa, 1958.
Crónica de negócios e negociatas, de traições e transigências, na indústria, na finança, na imprensa, continua a triste saga de Ataíde e Melo, iniciada vinte anos antes em Gente de Bem.
Mercê de expedientes a que lança mão desde sempre, o self made man Joaquim Ataíde e Melo guindou-se à situação de c.e.o. (como agora se diz, em horrendo economês) da empresa proprietária do "Diário da Tarde". Trabalha para seu proveito e para ajustar contas, desviando -- é claro -- os dividendos alcançados pela empresa. Uma vida de estadão, pois então, motorista fardado, amante(s), a mulher no Estoril, para aborrecer o menos possível. Deslumbrado, megalómano, ávido, será substituído em assembleia geral de accionistas, curiosa actualidade...
Acaba mal, o ganancioso, ao contrário da filha, Maria Eduarda -- o único caracter decente deste hediondo fresco da burguesia. Em Gente de Bem, saíra da casa dos pais para viver com o homem que amava e com quem partilhava afinidades electivas. Ou julgava partilhar. Álvaro de Castro (será coincidência a personagem ter nome dum primeiro-ministro da República, por sinal um dos mais à esquerda, que levou para o executivo alguns membros da Seara Nova, nomeadamente António Sérgio), Álvaro de Castro -- escrevia -- , é um advogado cujas ideias arejadas, que tanto seduziram Maria Eduarda, não resistiram à perspectiva de uma promissora carreira, chegando a casar-se com esta por mera conveniência de salvaguardar aparências.
A filha do patético Ataíde e Melo não quer atraiçoar-se e divorcia-se, trilhando um caminho cheio de dificuldades, mulher de poucas habilitações, guardada para o papel de esposa e mãe. Cruzar-se-á com um médico e investigador, António Ribeiro Gomes, de convicções libertárias, todo consagrado à sua vocação. Homem difícil e reservado, Maria Eduarda terá como projecto de vida dedicar-se-lhe, com a expectativa de vir um dia a ser verdadeiramente amada. Confesso o meu desapontamento pela saída dada por Esperança a esta personagem fascinante; mas, apesar de tudo, que poderia fazer uma fêmea sem habilitações no Portugal de meados de novecentos, para além de se devotar ao marido ou companheiro? É curioso ver a nota que o autor nos dá sobre a sua própria valorização das atribuições sociais: o advogado revela-se oportunista, de convicções moles, ao contrário do médico, com outra nobreza e que decorre das convicções de Assis Esperança a respeito dos malefícios e benefícios das duas actividades. (Há, a propósito, uma fugaz aparição de um candidato a deputado, cheio de lábia e presunção, indicadora do menosprezo, bem anarquista, do romancista pela representação partidária).
Tal como se verificou em Gente de Bem, a Senhora de Ataíde e Melo (continuámos sem lhe conhecer o nome próprio...) e o filho têm um papel secundário. Este será, no fundo, um lídimo sucessor do pai, em trapaça e falsa compostura. A mãe, tonta inútil e negligenciada, tem como desígnio principal da sua irrelevante existência o de divulgar em Portugal o culto de São Judas Tadeu, apóstolo desgraçadamente confundido com o outro, o que vendeu Cristo por trinta dinheiros, um Judas Escariote em que, sem que disso tivesse noção, se tornara o homem com quem casara e de quem parira.
O romance supera em contenção e em estilo aquele de que é sequela; mas perde no confronto para o livro imediatamente anterior de Esperança, o magnífico Servidão.
Incipit -- Quando, entre a correspondência recebida, nessa tarde, do Continente, passadas as cartas uma a uma, Ataíde e Melo não viu o timbre, em relevo, de Montargil & C.ª, desenrugou a fronte e respirou fundo. Quinze dias antes, manadara para Lisboa, como lhe fora ordenado, sangria, ao que lhe parecera, desatada, um minucioso relatório sobre a crise dos bordados da Madeira, possibilidades de se lhe atenuarem os efeitos, reconquista de mercados, e prováveis lucros ou prejuízos fabris nessas proximidades do fim do ano. E ficara à espera, e contava que, pelo menos, como era norma da Casa que servia, acabariam por menosprezar todos os seus alvitres e exigir-lhe um muito maior esforço de trabalho.
A capa de Roberto Nobre, cumpre. Há muito que ele se afastara das actividades gráficas para dedicar-se ao ensaísmo cinematográfico (e também literário). Presumo que esta capa terá sido feita pela grande amizade com Assis Esperança.

É um prazer lê-lo, RAA! Consegue sempre tornar atraentes estas suas leituras :)

Obrigada!
Ana Paula a 6 de Julho de 2009 às 02:00

Sempre amável, Ana Paula :)
Um abraço
RAA a 6 de Julho de 2009 às 16:42

He, he, tenho amigos Ataíde e Melo (entretanto acrescidos de "th", "y" e duplo "l". Será que já leram Assis Esperança? Abraço.
Paulo Ferrero a 7 de Julho de 2009 às 15:39

Grande Paulanski!
Parece que em 1938, depois de "Gente de Bem" houve quem se tivesse manifestado, por isso, ele teve o cuidado, no "Trinta Dinheiros", de advertir para as coincidências...
Outro.
RAA a 7 de Julho de 2009 às 19:37

Excelente, esta sua boa vontade de partilhar o Assis Esperança e outros autores que ainda não foram reeditados. Bom trabalho e boas leituras. :-)
GJ a 9 de Julho de 2009 às 19:36

Obrigado, GJ :|
Se encontrar o «Servidão», em boa parte passado aí no Porto, não hesite em comprá-lo.
RAA a 9 de Julho de 2009 às 22:52

Assim farei. Se encontrar digo-lhe.
GJ a 10 de Julho de 2009 às 01:18

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