letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
23
Jan 07
publicado por RAA, às 17:35link do post | comentar
Álvaro Cunhal
Explica-se por isso o ataque que desde finais da década de trinta a revista passou a sofrer por parte de sectores neo-realistas alinhados com o PCP. Está adquirido que o labéu redutor da «arte pela arte» imputado à presença e objurgatórias do género da «torre de marfim» e do «umbilicalismo», que alegadamente procuravam denunciar uma atitude estética de alheamento dos homens e dos seus problemas mais ingentes -- denúncia que continha em si uma reprovação ética --, não foi mais do que um pretexto para fustigar o fervoroso apoliticismo artístico de Régio e Simões (que não de Casais) e separar as águas entre duas formas de conceber a arte. (42) Numa missiva dirigida a Simões, o futuro autor de Davam Grandes Passeios aos Domingos notava a divergência assumida por um aguerrido sector de novos escritores em oposição à presença: «Uma geração começa a mexer-se contra nós, é certo -- mas contra o que em nós é melhor só pode mexer-se pelo que nela é pior.» (43)
(42) Sobre a polémica entre Álvaro Cunhal e José Régio, num contexto histórico-cultural, ver José Pacheco PEREIRA, Álvaro Cunhal -- Uma Biografia Política, vol. I, Lisboa, Temas e Debates, 1999, pp. 358 e segs.; José Augusto SEABRA, «Cunhal versus Régio ou o Ideólogo contra o Poeta», Boletim, n.º 4-5, Vila do Conde, Câmara Municipal / Centro de Estudos Regianos, 1999, pp. 101-110.
(43) Carta de 21 de Março de 1936, in Eugénio LISBOA, O Segundo Modernismo em Portugal, p. 59.
(continua)

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22
Jan 07
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Morreu ontem Elena Muriel Ferreira de Castro. Foi das mulheres mais bonitas que conheci. Viúva de Ferreira de Castro, conhecera-o há 70 anos, no Estoril, ela com a sua família refugiando-se em 1936 da borrasca que se anunciava no país vizinho que era o seu; ele refugiado do tumulto do Chiado dos cafés e da conversa fiada, numa pequena casa que arrendara para escrever.
O seu encontro deu-se no atelier de Guilherme Filipe, nas Arcadas do Parque. O pintor desafiara Castro a posar para a jovem pintora espanhola, e este acedeu de imediato, fascinado pela beleza e frescura daquela jovem encantadora.
Ela tinha 23 anos e era filha-família; ele, 38, e era escritor, um autor em plena explosão das suas capacidades efabulatórias: em 1928 reeinventara(-se) com Emigrantes, diferente de tudo quanto imprimira até então, e também de tudo o que o romance português até lá apresentara aos leitores; A Selva, de 1930, fora a poderosa confirmação da veia iniciada com o livro anterior: nunca se escrevera nada como aquilo sobre a Amazónia, e hoje persiste como uma das grandes narrativas em língua portuguesa; Eternidade (1933), uma interrogação à morte, motivada pelo falecimento da sua primeira companheira, Diana de Liz, com quem vivera entre 1927 e 1930; é um livro da insurgência do homem contra o seu destino finito, mas também de rejeição do atavismo social que originava o lumpen operário e camponês, livro libertário por excelência, devorado, como os anteriores e os seguintes, pelos jovens futuros neo-realistas; em 1934, Terra Fria, análise do microcosmo quase proto-medeival do Barroso, valeu-lhe o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências.
Castro estava, pois, em grande: vivia dos seus livros e para os seus livros, que entretanto começavam a ser traduzidos. Não o suficiente, porém, para convencerem os pais de Elena a permitirem qualquer espécie de relacionamento, forçando-a a viajar para a Argentina, suficientemente longe de um artista, talvez boémio, que outro modo de vida não tinha.
Elena Muriel, contra tudo e todos, arrostou com a ira familiar, pais e irmã mais velha, e sozinha embarca para Paris, onde se encontra com Castro, aí casando em 1938. Os laços familiares só se reatam após o nascimento da filha de ambos, em 1945.
Juntos deram a volta ao mundo, em 1939. Ao contrário do que acima foi descrito, o percurso literário de Castro, que parecia ser luminoso, rapidamente se transformou num pesadelo, em face da Censura, irredutível quanto aos temas que ele desejara tratar. Um romance tendo a Revolta da Andaluzia (1931) como pano de fundo -- O Intervalo -- ficou na gaveta até 74; uma peça encomendada por Robles Monteiro para o Teatro Nacional, o problema da pena de morte como tema central, é censurada nas vésperas da representação; romances iniciados e que não passavam dos primeiros capítulos, por nem sequer valer a pena insisitir mais, ficaram na gaveta. Foi isto que levou Castro a escrever relatos de viagens. Elena acompanhou-o, e está muito presente na narrativa, e nas fotografias que fez, e nos motivos que pintou. A sua pintura de cromatismo suave, viveu largos anos na sombra do grande escritor; além disso, uma intoxicação provocada pelas tintas obrigou-a a suspender por um longo período o trabalho artístico, que retomará, episodicamente, já após a morte do seu marido, e ainda em homenagem a este, como podemos ver no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, e na Biblioteca de Ossela (Oliveira de Azeméis).
Bati-lhe à porta em 199o/91. Preparava o meu primeiro trabalho de algum fôlego sobre ele. Nunca me esquecerei de quanto isso era importante para ela, apesar de uma injusta noção de segundo plano em que muitos a tiveram na vida do escritor. É certo que Diana de Liz foi uma intensíssima e breve relação de três anos, terminada tragicamente, deixando Ferreira de Castro à beira da loucura e do suicídio; mas os quase 40 anos de vida em comum que José Maria e Elena partilharam, tiveram esse grande horizonte da madurez do romancista pleno de A e a Neve, A Curva da Estrada, A Missão, O Instinto Supremo, do artista de referência na difícil oposição ao salazarismo, na consagração nacional e internacional da sua obra, e no súbito apagamento mediático que se dá com a sua morte, dois meses após o 25 de Abril. Ela que se habituara com ele às luzes da ribalta, faria o resto de caminho como que perplexa por esse desinteresse. Desinteresse que é só aparente e mediático -- por isso, superficial --, provam-no as reedições sucessivas, os filmes, os colóquios, as «obras completas» que do Círculo de Leitores à Planeta Agostini o foram pedestalizando. Mas Castro era já um autor póstumo, en fase de reavaliação e redescoberta; e foi com essa posteridade, umas vezes demasiado distraída, outras analítica porventura em excesso, que ela teve de viver os últimos trinta anos da sua vida, como se ela própria vivesse um tempo que já não era o seu.
De Elena Muriel, guardo o sorriso de uma senhora de idade, a quem, a certa altura, a vida correspondera e gratificara pela beleza que emprestara a quem a via; e guardo a certeza do grande amor pelo seu marido e pela obra que nos legou. Nunca a esquecerei.

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21
Jan 07
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publicado por RAA, às 20:23link do post | comentar
Ex.mo Senhor Presidente do Conselho
Professor Doutor Marcello Caetano:
Tenho ao meu cuidado a perspectiva de dirigir um jornal nascido no Porto e que persistiu em tantas vicissitudes, que o público o tomou como infeliz cartaz da cidade. De tudo quanto se colhe de estudo que nos sirva ao procedimento, às vezes há que escutar o senso popular como a melhor maneira de prever o futuro. O nome de Diário do Norte devia ser mudado, isto como satisfação que estimula muitos, e medida que não chega a desaprovar ninguém. Trata-se de um jornal de que o Porto está pronto a orgulhar-se, logo que lhe evitem o pretexto de o ter de receber mal. É sabido que, para conhecer os homens, não basta desprezá-los. Quando uma animosidade se manifesta na massa, é certo que esta obedece à praxe da discórdia, mas quase sempre tem também alguma base de porfia num estado de equilíbrio. Pois há uma ordem de interesses que é sentida por todos igualmente.
Eu peço a V. Ex.ª que, se os altos problemas a que preside o permitirem, se digne conceder uma observação a este assunto que, por ser modesto, requer paciência, e de cuja conveniência e oportunidade só V. Ex.ª poderá decidir.
Isto de jornais, melindre fácil na ciência da produção, depende muito de que nos antecipemos ao capricho das gentes, com uma dose de inactualidade, que é compreender, mais do que definir.
Com os meus respeitosos cumprimentos
de V. Ex.ª admiradora e grata
Agustina Bessa Luís
23 de Agosto de 1971
Cartas Particulares a Marcello Caetano
(edição de José Freire Antunes)

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Paul Signac, O Pequeno-Almoço
Rijskmuseum Kröller-Müller, Oterlo

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