letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
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Jul 07
publicado por RAA, às 21:29link do post
Quando se fizer uma grande antologia do trabalho a solo de McCartney, será necessário algo equivalente aos antigos álbuns duplos «vermelho» e «azul» dos Beatles.
Ele não foi apenas o mais popular dos «Fab Four», como o mais dotado de génio melódico. Autor de «Yesterday» a «Let It Be», passando por «Michelle», «Hey Jude» e inúmeras outras, foi dos quatro de Liverpool aquele que teve um percurso mais rico, embora cheio de altos e baixos, mas com composições que o redimem das tentações mais oportunisticamente comerciais. «Jet», «Band On The Run», «Silly Love Songs», «We All Stand Together» são alguns dos marcos assinaláveis desse caminho pejado de pequenas obras-primas, por vezes esquecidas num lado B dum single ou perdidas no meio da dezena ou dezena e meia de um Lp ou de um CD. Mas quem compôs «My Love» ou «Mull Of Kintyre» tem direito a todos os perdões e ao reconhecimento de todos os amantes da pop. Embora Lennon e Harrison tenham contribuído com o seu quinhão para manter acesa a chama mágica dos Beatles, é a McCartney que devemos a circunstância de ela continuar shining brightly -- pelo que fez, repito, antes e depois deles.
Tug Of War (1982) é um dos seus mais conseguidos trabalhos, não sendo alheia a esta constatação o concurso do produtor, George Martin, a quem já chamaram o «quinto Beatle»...
A música de McCartney costuma oscilar entre as evocações nostálgicas (musicais, líricas, vivenciais..) e a necessidade de intervenção em grandes temas da actualidade contemporâneas. Foi assim, por exemplo, com «Give Ireland Back to The Irish», em 1970. Neste LP são talvez mais abundantes as composições com carácter de intervenção: o racismo («Ebony And Ivory»), a Guerra Fria («Tug Of War»), a especulação bolsista («The Pound Is Sinking»). Em simultâneo, topamos com as sentidas evocações, directas ou indirectas, de outros tempos, em que Paul convida o seu ouvinte a aderir em conjunto às memórias evocadas. É o caso de «Ballroom Dancing», com um soberbo início num puxado piano quase ragtime; a presença de Ringo Starr em «Take It Away»; a piscadela de olho aos Beatles com a inclusão do refrão do velho «She Loves You» em «What's That You're Doing?» (única música em co-autoria, neste caso com Stevie Wonder); o dueto com o rocker Carl Perkins (autor de «Blue Swede Shoes») em «Get It» (o rock'n'roll foi sempre uma inspiração para McCartney); e, por todas, a sentida evocação, a amrgurada invocação de John Lennon, em «Here Today» -- propositada reminiscência de «Yesterday» --, em que se percebe a comoção diante do irreparável, após o assassínio daquele com que fez a dupla mais importante de toda a música popular, como se as coisas pudessem ter corrido de outra maneira entre ambos: «What about the night we cried? / Because there wasn't any reason left / To keep it all inside / Never understood a word / But you were always there with a smile // And if I say I really loved you / And was glad you came along / Then you were here today / For you were in my song / Here today». Referira-se ainda a colaboração de Andy Mackay, dos Roxy Music, de Denny Lane, ex-Moody Blues e ex-Wings, e, fazendo também a ponte com a segunda banda de Paul, da sua mulher, a malograda Linda McCartney, que soube ser ao longo de mais de duas décadas, não apenas a companheira devotada, como uma música indispensável pelo claro enetnedimento que ela possuía da personalidade musical do seu marido.
Termino falando de «Tug Of War», a já referida faixa inicial que dá título ao álbum, com um portentoso arranjo orquestral tão ao gosto de McCartney e Martin, perfeitamente harmonioso com a guitarra de Lane e com a secção rítmica; de «Wanderlust», um tema antológico com colorações épicas, uma espécie de rock-tambourin em que a percussão e os metais do Philip Jones Brass Ensemble quase nos transportam aos tempos de Monsieur Jean-Baptiste Lully, o compositor preferido de Luís XIV; finalmente, o aclamado «Ebony And Ivory», que para além das boas intenções conseguiu marcar o ano. Nem é um grande tema, mas não foi característica dos Beatles, nomeadamente de Paul McCartney, tornar o trivial sublime?


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