letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
14
Fev 12
publicado por RAA, às 23:54link do post | comentar
Uma das últimas diabruras de Jorge Amado, sub-subtitulado Os Esponsais de Adma.
Chegamos a velhos, e é isto: a mão segue a solo, com grande mestria, e nada mais importa.
Além da diversão do divertimento, aumentei a minha cultura geral: no "Capítulo da Perfeição" do Livro do Génesis, fico a saber que a obra-prima do Senhor se designa por "xoxota de chupeta", devidamente ilustrada pelo grande carybé no "Rondó das Bucetas"...
Incipit: «A acreditar-se nos historiadores ibéricos, sejam espanhóis sejam portugueses, a descoberta das Américas pelos turcos, que não são turcos coisíssima nenhua, são árabes de boa cepa, deu-se com grande atraso, em época relativamente recente, no século passado, não antes.»
autor: Jorge Amado 
título: A Descoberta da América pelos Turcos 
subtítulo: Ou de como o Árabe Jamil Bichara, Desbravador de Florestas, de Visita á Cidade de Itabuna para Dar Abasto ao Corpo, Ali Lhe Ofereceram Fortuna e Casamento
sub-subtítulo: Os Esponsais de Adma
colecção: Obras de Jorge Amado #26
editora: Publicações Europa-América
local: Mem Martins
ano: 1994
págs.: 158
impressão: Gráfica Europam, Mira Sintra

16
Out 05
publicado por RAA, às 16:55link do post | comentar

publicado por RAA, às 16:54link do post | comentar
Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 1934.

Meu caro Ferreira de Castro.

Acabo de voltar ao Rio e encontrei na Ariel a sua última carta. Agradeço os seus conceitos sobre Cacau e Suor.
Venho de passar quatro meses na Baía, recolhendo um resto de material para um romance sobre negros. Chamar-se-á Jubiabá, nome de um macumbeiro de lá e espero fazer um livro forte, fixando nas duas primeiras partes -- Baía de Todos os Santos e -- Grande Circo Internacional -- todo o pitoresco do negro baiano -- música, religião, candomblé e macumba, farras, canções, conceitos, carnaval místico -- e toda a paradoxal alma do negro -- raça liberta, raça das grandes gargalhadas, das grandes mentiras e raça ainda escrava do branco, fiel como cão, trazendo nas costas e na alma as marcas do chicote do Sinhó Branco. A terceira parte -- A greve -- será a visão da libertação integral do negro pela sua proletarização integral. Que acha v. do plano?
Lhe envio um Boletim de Ariel onde falo em V. Aliás a nota está besta. Mas vale a intenção. V. recebeu meu artigo sobre Terra Fria? Acuse o recebimento.
Mande dizer o que v. está fazendo. Qual o livro que o preocupa no momento? V. tem um grande público aqui no Brasil. Aliás porque v. não envia pro Ariel uma nota sobre a nova literatura de Portugal? Aqui há um certo movimento intelectual que está fazendo alguma coisa. O público nos apoia intensamente. Compra nossos livros. A crítica, é natural, se divide em descompusturas e elogios. Mande o artigo. Porque v. não aparece aqui de novo? Pelo que depreendo dos seus livros v. esteve por aqui em 24. Gostaria de ser seu cicerone numa viagem longa através do Brasil. Vendo as casas coloniais da Baía. Material que em suas mãos daria romances como A Selva.
Me escreva. Agora não saio do Rio tão cedo. O Lins do Rego está em Maceió onde reside. Mandei em carta suas lembranças para ele.
Abrace o seu amigo e admirador
Jorge Amado
Boletim de Ariel
R. Senador Dantas -- 40 -- 5.º
Rio.
In Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo -- Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século

20
Set 05
publicado por RAA, às 22:02link do post | comentar
Os urubus ficaram para trás. Não custou muito trabalho remover a pouca terra que cobria o corpo de Dina. Também eles não encontravam muito que comer no desolado da caatinga. Juntaram-se num bando irrequieto e barulhento, trocando bicadas entre si, sobre o cadáver. Adiante, Jerónimo, que não os via no céu, a persegui-los, imaginava o que se estava passando. Também João Pedro sabia que eles estavam devorando o cadáver de sua mulher. Mas não tinha coragem de voltar, de perder mais tempo, como não tinha mais forças para sofrer, nem lágrimas para chorar. Aos poucos se foram compenetrando de que não chegaria nenhum ao fim da viagem, a nenhum seria dado ver a fartura que existia por São Paulo. Mas marchavam para diante, que pior seria voltar. E voltar para onde, se já não tinham terra, nem casa, nem mandiocal, nem milharal?
Pelo meio da tarde novamente os urubus os alcançaram e voavam em círculos sobre eles.
Seara Vermelha

publicado por RAA, às 22:01link do post | comentar
Posted by Picasa Fotografia de Roberto Frakenberg

02
Set 05
publicado por RAA, às 21:04link do post | comentar
Posted by Picasa Estou a meio do livro. Leio o Jorge Amado desde a adolescência. Tenda dos Milagres, a deliciosa história de Pedro Archanjo, foi a obra que me introduziu no universo deste grande brasileiro. Hoje quase que lamento não ter a pureza dessa época em que me deixava envolver pela surpresa e pelo estupor que me instilava a crua realidade encerrada nos livros do autor de Jubiabá.
Seara Vermelha data de 1946, da fase comunista militante do seu autor. Dedicado a Luís Carlos Prestes, abre com epígrafes deste, de Castro Alves e de Engels. Trata-se de uma odisseia de retirantes -- desses retirantes imortalizados na tela por Portinari -- através da caatinga até São Paulo, terra de oportunidades. Algum desleixo formal que existe na prosa de Amado é largamente compensado pelo boa oficina romanesca; um estilo poético, podendo resvalar, por vezes, para algum empolgamento épico, é logo corrigido pelo realismo das personagens e das situações narradas e também pela gostosa ironia do romancista. Estou a acompanhar uma família alargada, expulsa pelo novo proprietário das terras em que vivia e trabalhava. Jerónimo e Jucundina são, até agora, os protagonistas principais, além dos filhos sobrantes, três netos de uma filha falecida no derradeiro parto (Tonho, Noca e Ernesto), os irmãos de Jerónimo, a louca Zefa e João Pedro, mais a mulher e a filha deste. Sofrem várias baixas durante a viagem, crianças e adultos. Noca faz uma ferida no pé ao correr atrás da sua gata, Marisca, que, contra a opinião dos adultos, insiste em levar na travessia do sertão, único brinquedo da criança de sete anos; contraindo uma infecção, morre pouco depois. E não será sem problemas de consciência, pelo menos de alguns dos seus membros, que a família virá a comer a gata para enganar a fome. Dina, mulher de João Pedro, morrerá de uma espécie de tifo, já a família exausta tem semanas de caminhada. As suas forças pouco mais dão que para um simulacro de exumação. Afastados poucos metros, percebem que os abutres ficaram para trás:
«Juntaram-se num bando irrequieto e barulhento, trocando bicadas entre si, sobre o cadáver. Adiante, Jerónimo que não os via no céu, a persegui-los, imaginava o que se estava passando. Também João Pedro sabia que eles estavam devorando o cadáver de sua mulher. Mas não tinha coragem de voltar, de perder mais tempo, como não tinha mais forças para sofrer nem lágrimas para chorar.» (5ª ed., p. 102).
A minha realidade é outra, já não tenho esses quinze anos em que ficava esmagado depois de ler Capitães da Areia, Mar Morto ou Terras do Sem Fim. A realidade é outra. Vejo no Público de hoje a fotografia dum miúdo iraquiano a chorar a perda de parentes naquela tragédia da ponte, desastre causado pelo medo dos atentados e pelo ajuntamento de peregrinos; vejo cadáveres, lixo e desespero em Nova Orleães, a cidade de Armstrong inimaginável no grau de destruição e caos. Já não me surpreendem estes dramas humanos, como quando era novo, mas ainda tenho, por vezes, de dobrar o jornal, ou afastar o livro, fechar os olhos e respirar fundo.
Alterado em 5-IX-2005.

mais sobre mim
Novembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

15


25
26
27
28
29
30


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO