letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
11
Fev 06
publicado por RAA, às 15:43link do post | comentar | ver comentários (2)
Meu querido Amigo
No momento em que se torna necessário dar uma nova forma à união dos exilados para integrarmos nela os nossos correligionários recentemente vindos para França, cumpro, deveras reconhecido, o dever de lhe significar, e aos seus dignos colegas quanto me foi grata a camaradagem patriótica que, na perfeita solidariedade com os outros delegados, VV Ex.as me dispensaram nos trabalhos que nos coube realizar para o restabelecimento das livres instituições democráticas entre nós.
Escuso de acrescentar com que empenho desejo ver constituída o mais breve possível a nossa união dos exilados de Paris. Tanto estou certo de que os seus membros continuarão a tradição de manter a estima e generoso civismo que os delegados à nossa precedente união demonstraram sempre em todas as reuniões que tive a satisfação de presidir, sendo os nossos votos aprovados e executados honrosamente pela Liga de Defesa da República e pelo Grupo do Partido Republicano Português sem olharem a sacrifícios.
Aceitem VV. Ex.as os protestos da minha maior dedicação.
Saúde e Fraternidade
(a) Bernardino Machado
Paris, 24-12-928.
In A. H. de Oliveira Marques, A Unidade da Oposição à Ditadura -- 1928-1931

publicado por RAA, às 15:42link do post | comentar | ver comentários (2)

08
Out 05
publicado por RAA, às 16:03link do post | comentar
Londres, 11 de Agosto de 1911
Querido Amigo:
Cruzaram-se as nossas cartas de ontem. -- Antes de sair de Lisboa, falando ao Camacho na possibilidade de se lembrarem de mim, em qualquer aperto para a pasta dos Estrangeiros, declarei-lhe categoricamente que nunca a aceitaria, e a haver quem, por tal motivo, me acoimasse de mau patriota, eu recolheria definitivamente ao meu buraco, de onde não sairia mais. Ficou assim o B. Camacho com procuração bastante para decidir o assunto e dou-lhe também a você no mesmo sentido, acrescentando que essa pouca energia e o resto de saúde que eu ainda conservava em Lisboa, se esgotaram quase completamente, tendo hoje como certo que, posto na alternativa de aceitar a pasta dos Estrangeiros, ou dar um tiro na cabeça, preferiria, sem a mínima hesitação, o tiro. Isto é positivo e daqui não haverá influências humanas ou divinas que me demovam. Aceitando o posto que ocupo dei ao País muito mais do que podia e devia dar.
O homem que está indicado para os Estrangeiros é o A. de Vasconcelos. Fala-se nele; é que ele aceita e quer. Com as suas amarras ao Bernardino, ao Camacho e ao Costa, considere-o você já ancorado no Terreiro do Paço. É inteligente, activo e culto; fará portanto bom papel político e de quando em quando operação cirúrgica rendosa, o que também tem importância.
A situação aqui vai de mal a pior. Naturalmente a impressão que eu dou aos portugueses que passam pela Legação é optimista, mas a verdade é que a situação é péssima.
O F. de Andrade, que esteve aqui mais 15 dias e conversou com toda a gente que tem negócios connosco, é da mesma opinião.
Que quer, não se faz coisa alguma para nos aplanar o caminho. Se eu ainda não consegui que se nomeasse vice-cônsul um homem de grande influência e respeitabilidade, que tem aguentado a Câmara Anglo-Portuguesa (atacado por todos os lados pelos nossos inimigos) e nos tem prestado relevantíssimos serviços, entre eles a organização de representações ao Governo inglês para fazer o modus-vivendi no sentido em que o desejamos. Esse homem suspira por essa honra vertiginosa há 10 anos, mas o grande Batalha de todos os Reis, que lhe não convinha por motivos de pecúnia, a existência dum vice-cônsul -- sempre lhe deu para trás e continuará dando. A propósito desse nome faustoso: falei-lhe tempos atrás na esperança que ele acalentava (em família) de ir a ministro dos Estrangeiros. Riu-se você sem dúvida desdenhosamente. Pois riu-se fora de propósito. Ele aduz em favor dos seus direitos, além da brilhante carreira diplomática universalmente conhecida, a circunstância de, aí pelas alturas de 1520 (sic), quando se preparava uma das infinitas revoluções platónicas de que José Elias Garcia e outros tiraram privilégio de invenção, ter sido solicitado para entrar no primeiro Ministério, sobraçando aquela pasta, para o que, expressamente o viera a Londres convidar o nosso tão venerável quanto profético Junqueiro. Dessa vez recusou com a mesma nobreza com que agora a requer.
Queixa-se você do calor e que ainda tem banhas. Já derreti as minhas, de modo que não há perigo de ver a pena escorregar-me pelos dedos, que são verdadeiras tenazes de coiro batido.
Seu do coração
Correspondência I -- Cartas para Políticos e Diplomatas
(edição de Castelo Branco Chaves)

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