letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
01
Jun 06
publicado por RAA, às 23:22link do post | comentar
SONETO DO OUTONO

A CORREIA DA COSTA

Enquanto o Outono lacrimoso tece
Seus claros véus de chuvas e de bruma,
E o prado de esmeralda empalidece,
E as folhas de âmbar tombam uma a uma...

Enquanto o vento, em cânticos de prece,
Com afagos de seda me perfuma,
E a tarde exangue, em êxtase, esmorece
Num céu morno de etéria sumaúma...

É que me sinto amar com mais ardor
Tua beleza de ave, estrela e flor,
-- Beijo que rezo e sonho que murmuro...

E num deslumbramento prodigioso,
Noivo, comungo, em plenitude e gozo,
Teu destino de sombra, que procuro.

Antifonário Pagão

15
Abr 06
publicado por RAA, às 01:06link do post | comentar | ver comentários (2)
IDEIAS

Honra: Brio: Dignidade:
Onde estais? Quem vos preza?
--Não posso viver pobre. A frialdade
Que me dá toda a pobreza!

Lembram-me bichos, carochas, centopeias,
Musgo, paredes húmidas, bolores,
Ao pensar na pobreza! -- Ideias.
E causam-me suores.

In Líricas Portuguesas, vol. 2
(edição de Cabral do Nascimento)

02
Mai 05
publicado por RAA, às 20:18link do post | comentar
ELEGIA DA DISTÂNCIA

A Teixeira de Pascoais


Rios de Trás-os-Montes, a rezar
A elegia dum sonho que morreu...
Sonâmbulas montanhas, onde o luar
É um anjo imenso errando pelo céu;

Melancólicos vales, onde o mar
Seu miserere trágico escondeu,
Onde, como um assombro, a cogitar,
Paira o vulto espectral de Prometeu;

Sou um fantasma errante do Marão,
Vestido de penumbra e solidão,
Que, em poeira de estrelas, se dilui...

Minha presença é feita de lembrança,
E ando, de noite, enfermo de esperança,
A interrogar a sombra do que fui.

Mocidade Lírica

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