letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
03
Nov 11
publicado por RAA, às 22:54link do post | comentar

O mar que embala, às noites, o teu sono

É o mesmo, flor! que à noite embala o meu.

Mas em vão canta a minha ama do Outono,

Pois pouco dorme quem muito sofreu.

 

Mas tu feliz qual rainha sobre o trono,

Dormes e sonhas... no que, bem sei eu!

O teu cabelo solto ao abandono,

As mãos erguidas de falar ao céu...

 

Feliz! feliz de ti, doce Constança!

Reza por mim na tua voz quimérica,

Uma Avé-maria de Esperança!

 

Por minha saúde e glória (Deus m'a dê)

Por essa viagem que vou dar à América...

Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porquê!

 

Ilha da Madeira, Maio, 1898

 

Despedidas


19
Nov 06
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Segunda-feira, 27-XI-1893.
18-- rue de la Sorbonne -- Paris
Ex.mo Senhor,
Há já alguns dias que cheguei a Paris e, se agora só venho ao pé de V. Ex.ª dar-lhe parte da minha chegada, é por só agora me achar restabelecido da minha dolorosa viagem. Levado pelo meu imprudente e herdado amor pelo mar, segui num pequeno vapor do Porto para o Havre, e no Canal da Mancha estive quase a ir ao fundo com uma tempestade do século XVI, como os seus olhos de historiador tantas têm visto. Sofri imenso. Hoje, tranquilo, venho dar a V. Ex.ª a minha adresse, como me disse da última vez que o visitei para pedir a V. Ex.ª a sua intervenção junto do Dr. Eduardo Prado: pedido que tomei a liberdade de lhe fazer sem que as nossas relações mo consentissem, é verdade, mas tendo apenas o estímulo da amizade que V. Ex.ª tem aos meus versos, o que me comove excepcionalmente por vir dum espírito que amo do coração e a que devo tanto. Espero me desculpará.
O Sr. Oliveira Martins, desse querido Portugal, disponha de mim, se dalguma coisa posso ser-lhe agradável neste País, agora tão lúgubre, sob a neve que está a cair.
Sou de V. Ex.ª, com a maior simpatia, muito admirador e dedicado criado,
António Nobre
In F. A. Oliveira Martins, Oliveira Martins e os Seus Contemporâneos

09
Dez 05
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Leça, 19 de Outubro de 1886

Xavier:
Já te mandei (vá «tu», pois assim o queres, o bilhete-postal «urgente» que me pediste. É Ellen, sabes?
Perguntas-me se tenho lido a Ilustração? Não. Um irmão meu que assinava já não vive em nossa casa, portanto não a leio. Às vezes, na Província, deparava com um ou outro número. Se não me engano, foi lá que li as «Américas» versos teus de que gostei muito. Agora é tarde. Não poderás enviar-me os números em que eu colaborei? Vê lá.
Muito em breve remeter-te-ei originais à farta, para deles fazeres o uso que quiseres... Quando sair a tua «Révue» manda-ma.
Falas-me em um curso excelente que há em Paris. Ah, quem me dera! Mas tu, -- bem no sabes, -- vivo ainda sob a asa paternal... Embora o desejasse, era impossível.
Meu pai destina-me, e, portanto, forçado sou a frequentar a «Universidade», o antro da estupidez «local»!
Quem me dera, querido Poeta, desdobrar as pequeninas asas de «rouxinol» e, atravessando espaços, ir poisar no dorso altivo duma águia-monstro -- a França.
Tu é que tiveste juízo... a tempo. Vais-te relacionar com essa gente e correspondes-te com ela. Pelo que vejo, os homens daí, são bem mais «humanos» que os de cá. Não têm orgulho. Protegem os novos. Em Portugal, afora um ou outro, os escritores medem-se, não pelos seus escritos, mas pela vaidade. Há um amigo dos rapazes: é o Junqueiro. Este sim. É a Bondade inteligente. Tem um segundo cérebro dentro do coração e um segundo coração dentro do cérebro!
Adeus, abraça-te o teu
António Nobre
Correspondência
(edição de Guilherme de Castilho)

05
Nov 05
publicado por RAA, às 17:02link do post | comentar | ver comentários (5)
Paris, 6 Agosto 1894.

Ex.mo e caro amigo:
Não me queira mal, ou esqueça o mal que me tenha querido por eu só tão tarde ter agradecido o elegante livro.
«O coração põe e a Vida dispõe»: e a minha tão tiranicamente se tem comportado que não me deixa tempo para cumprir uma obrigação logo que a ela se mistura muita devoção.
Foi com alvoroçada simpatia que abri as folhas das Palavras Loucas. Mas Loucas porquê? Através delas só entrevi Razão, e madura, ou na fácil véspera de amadurecer. E nelas próprias só vi precisão, limpidez e ritmo que são qualidades de Razão e das melhores. É por esta linda arte de bem-dizer que eu o quero sobretudo louvar, -- ou antes felicitar, porque a Prosa é um dom, e dos Deuses, como a Beleza. Enquanto às suas ideias -- não lhe parece que o Nativismo e o Tradicionalismo, como fins supremos do esforço intelectual e artístico, são um tanto mesquinhos? A humanidade não está toda metida entre a margem do rio Minho e o cabo de Santa Maria: -- e um ser pensante não pode decentemente passar a existância a murmurar extaticamente que as margens do Mondego são belas! Por outro lado o Tradicionalismo em Literatura já foi largamente experimentado, durante trinta largos anos, de 1830 a 1860 -- e certamente não resultou dele aquela renovação moral que Portugal necessita, e que o meu amigo dele espera. Tivemos xácaras e romanceiros, e lendas e solaus, e moiros, e beguinos, e besteiros, e sujeitos blindados de ferro que gritavam com magnificência -- «Mentes pela gorja, D. Vilão!» -- e uma porção imensa de Novelística popular, e paisagens Afonsinas com torres solarengas sobre os alcantis, e tudo o mais que o meu amigo reclama como factor essencial de educação... E de que serviu tudo isso para o aperfeiçoamento dos caracteres e das inteligências, ou sequer para a sua renacionalização? De resto, o movimento Tradicionalista, cuja ausência o meu amigo lamenta, ainda não cessou, está em torno de si. Tomás Ribeiro, Chagas e toda a sua descendência literária, são tradicionalistas. E esses «Príncipes Perfeitos» e Duques de Viseu, e Pedros Cruz , e D. Sebastiões que frequentam o palco de D. Maria não creio que tivesse chegado aí, de Paris, pelo sud-express. E o resultado?...
Não, caro amigo, não se curam misérias ressuscitando tradições. Se a França, depois de 1870, tivesse resumido o seu esforço em renovar na Literatura as Chansons de Geste , ainda cá estavam os Prussianos. O dever dos homens de inteligência num país abatido, tem de ser mais largo do que reconstruir em papel o Castelo de Lanhoso ou chamar as almas a que venham escutar os rouxinóis do Choupal de Coimbra.
Em todo o caso o grito do Tradicionalismo é um belo grito, sobretudo quando nos chega numa voz tão polida, e culta, e penetrante, e elegante como a sua. E aqui volto ao meu primeiro louvor, o da forma excelente, tão fina e luminosa, que reveste todo o seu livro. Quando se possui um tão belo instrumento, deve-se tocar uma ária mais larga e mais profunda que a do neo-medievalismo e do neo-trovadorismo. E, a propósito, o que é o Neo-Garrettismo? Estou com muita curiosidade de saber a que nova concepção do Universo, a que novo método Científico, ou a que feitio original do espírito crítico, deu o seu grande nome o mestre genial do Frei Luís de Sousa. Se o Neo-Garrettismo é um sistema que nos habilitará, a todos, a fazer Frei Luíses de Sousas e Autos de Gil Vicente, então, por Júpiter! sejamos todos neo-garrettistas com fervente entusiasmo! Para me explicar todas estas coisas e sobretudo para o ver e abraçar é que eu desejo vivamente que se realize a sua vinda a Paris, que há tempos me foi anunciada por um amigo. É para este Outono?
E o António Nobre? Sei que ele está em Paris: mas esse moço encantador, desta vez, nem sequer me quis dar o gosto de saber onde instalara os seus lares. Da sua morada, onde quer que ela seja, à minha, não haverá (dada a extensão de Paris) mais de meia hora de fiacre. Eu, porém, que sou um fiel ledor de Homero, sei quanto custa aos Deuses descerem do Olimpo. Já o dizia Hermeias (vulgo Mercúrio) a Kalipso, que como sabe, morava burguesmente numa ilha do Arquipélago: -- «Cuidas que não é uma grande maçada descer dos sólios estrelados, para vir a estes tristes sítios mortais, onde nunca se respira um bocado de bom incenso nem se bebe um bocado de bom néctar?». -- Mas nisto se engana o meu amigo, porque se eu o desejava ver era justamente para lhe repetir quanto o estimo, e para bebermos juntos um pouco de Médoc, que é o desconsolado néctar destes tempos. Quando lhe escrever ralhe com ele, docemente.
E, enfim, caro amigo, um bom abraço, depois desta tagarelice, e agora, e sempre, me creia, fielmente
Seu muito dedicado
Eça de Queirós
In Alberto de Oliveira, Eça de Queiroz -- Páginas de Memórias

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