letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
13
Out 12
publicado por RAA, às 15:29link do post | comentar | ver comentários (2)

Tenho visto algumas perplexidades relativamente à atribuição do Prémio Nobel da Paz à União Europeia. Muitas vezes acompanhadas de imagens eloquentes de cargas policiais ou referentes à situação terrível por que passam os países intervencionados pela troika.

A verdade é que a Academia Norueguesa, ao tomar a decisão, não esteve a pensar em Merkel, Passos Coelho ou Durão Barroso, como é óbvio (como de resto não pensaria em Willy Brandt, Wilfried Martens ou Jacques Delors, nomes muito mais simpáticos).

 

O que o Nobel pretendeu distinguir foi uma ideia, velha ideia, secular ideia de concórdia e paz universal entre os estados. Nunca na história da humanidade se foi tão longe numa integração pacífica entre nações, tantas delas desavindas por centenas de anos de guerra, miséria e morte. É a grande utopia a desenrolar-se diante dos nossos olhos e a decorrer durante as nossas vidas. Como todas as utopias terá, tem, efeitos perversos -- muito menos, incomparavelmente menos, porém, que todas as utopias que foram postas em prática ao longo dos tempos  -- desde logo a utopia comunista bolchevique, ainda bem fresca na nossa memória, rapidamente transformada na distopia do gulag, no universo concentracionário do 1984, de Orwell...

 

Quando os noruegueses (que nem sequer integram a UE) vêm distinguir com o prestígio do Nobel uma ideia, um projecto, uma utopia, num momento em que ela passa por grandes dificuldades -- talvez a maior crise da sua curta história --, esta foi sem dúvida a melhor altura para o fazer, apanhando toda a gente desprevenida. O que eles demonstraram ao mundo foi, enfim, a sua lucidez, a sua sabedoria.


27
Abr 12
publicado por RAA, às 13:00link do post | comentar | ver comentários (2)

Leio a Peregrinação do Fernão Mendes Pinto, publicada postumamente em 1614, anotada pelo historiador Neves Águas. Grande escrita, da melhor escrita, um incipit inesquecível, dos começos mais arrebatadores de uma narrativa -- porque já sabemos muito do que a seguir leremos:

«Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; [...]».

E fundamental para sabermos de que massa somos feitos,  nós portugueses, mas também brasileiros, portugueses à solta nos trópicos.

 

Releio Capitães da Areia, do Jorge Amado, publicado em 1937 e queimado em praça pública de Salvador, com todos os livros anteriores do autor, no ano seguinte. Trinta anos depois, verifico que se mantém o encantamento com que então o li. O humor, a poética, a empatia, a envergadura de romancista. Claro que detecto hoje alguns problemas ao nível do estilo, nem sempre cuidado; mas se não há arte sem estilística (e a de Jorge Amado é adequada , porque serve a narrativa em vez de ofuscá-la) -- se não há arte sem estilo, este é insuficiente quando o escritor não é profundo. As estantes das bibliotecas públicas e privadas estão pejadas de monos irrelevantes de autores celebrados pela elegância, monos que nem sequer sobreviveram a quem os escreveu. Não Amado, de quem já alguém disse ter sido o Balzac brasileiro, pela sua dimensão de criador de mundos. Ele será sempre o deus e semi do romance da nossa língua comum -- como Eça caracterizou o (seu) amado Dickens, «deus e semi», em carta a Ramalho ou Oliveira Martins, se bem me recordo, depois de ter chamado a Balzac «semi-deus»...

 

Ah!, e sempre, sempre, muita poesia e muita BD, todos os dias. Os quadradinhos, que permitem a ilusão momentânea da infância e juventude perdidas; a poesia (e a música e a pintura), que quotidianamente antecipa o fim que me espera, o nada a que estou destinado, eu e as paixões da minha vida.


24
Abr 12
publicado por RAA, às 00:18link do post | comentar | ver comentários (2)

Um monumento que nunca tenha visitado? O primeiro que me veio à cabeça: a velha e tosca Porca de Murça (que, afinal, parece ser macho).

O fascínio da penumbra da História, do Paleolítico até hoje.



08
Fev 12
publicado por RAA, às 20:11link do post | comentar
 
As da BBC, pois claro. Sigo «Os Bórgias», às quartas no AXN, e os «Românticos Desesperados», às segundas, na RTP2 e ainda «Father», que abre a BritCom dos domingos.
Sobre a família espanhola que ocupou o trono de São Pedro, é a sabedoria da estação britânica no seu melhor e máximo fausto. Grande produção, dá-nos uma visão interessante, porque não estereotipada, do papa Alexandre VI e dos filhos, em especial César e Lucrécia. Formidável.
«Românticos Desesperados» não é super-produção televisiva, mas eficaz no explorar das ganas da Irmandade Pré-Rafaelita de Dante Gabriel Rossetti, Millais, Hunt, a musa e também pintora Lizzie Sydall, na sua desenfreada busca pelo belo mais imaterial. Parece que vão ainda aparecer Burne-Jones e William Morris. Para já, John Ruskin é personagem secundária, mas não despicienda; e Dickens, tão celebrado ontem, circula e dá alguma espessura historicista.
«Father», creio que é assim o título, é uma espécie de «Vigária de Dibley» ao contrário, não tão conseguido, mas bastante digerível.
 
 


07
Fev 12
publicado por RAA, às 11:06link do post | comentar

 

 imagem

 

O nosso grande Eça de Queirós, em carta a um amigo, referia-se a Balzac como"semi-deus", e a Dickens como "Deus e semi"...

 

Tempos Difíceis,a Inglaterra vitoriana pouco glamorosa. 

Não foi o primeiro nem deverá ser o meu último Dickens, nascido há 200 anos, faz hoje.


17
Jan 12
publicado por RAA, às 01:48link do post | comentar | ver comentários (4)

Em 7 de Abril de 1570 havia peste em Lisboa. Vindo de Moçambique, Luís de Camões, na companhia do escravo Jau e de Diogo do Couto, desembarcou em Cascais com o manuscrito d'Os Lusíadas. Gostava de ter visto a chegada do Trinca-Fortes


18
Nov 11
publicado por RAA, às 22:21link do post | comentar | ver comentários (2)

    

Foi um livro que me chamou imediatamente a atenção, mas que só agora li, doze anos depois de publicado. Um livro raríssimo, pois por cá ninguém se ocupa da Ásia Central. Com ele, Miguel Urbano Rodrigues (MUR) dá-nos um longo fresco do processo civilizacional desses territórios que abarcam hoje essencialmente o Afeganistão, o Irão e as antigas repúblicas soviéticas asiáticas, em especial o Uzbequistão, o Cazaquistão, o Quirguistão, o Turquemenistão, até à Mongólia, China ocidental e norte da Índia, centro do Império do Grão Mogol. Topónimos com uma carga enorme como Samarcanda e Ispahan, figuras históricas desde Alexandre, o Grande a Babur, passando por Gengis Khan, Tamerlão, entre tantos outros, desfilam quatro mil anos de história em 430 páginas (em caracteres miúdos), estribadas em copiosa bibliografia, incluindo fontes traduzidas. Era um livro de que eu queria furiosamente gostar -- e não saí defraudado. Um estilo claro, despretensioso, jornalístico no melhor sentido, torna muito atractivo este maravilhoso tijolo que historia milénios de sangue e morte, mas também de arte e poesia das melhores.

     Nascido de uma obrigação profissional -- quando o autor, chegado como repórter ao Afeganistão no início da década de oitenta, rapidamente chega à conclusão que não tinha os instrumentos conceptuais para entender aquela realidade, e que só conhecendo a história dessa vasta região lhe permitiria realizar trabalho que satisfizesse, MUR mergulhou naquela, desde que tribos arianas se estabeleceram no actual território afegão, em 1900 a.C.

     O livro tem essencialmente duas partes: as primeiras 395 páginas -- XX capítulos, dos persas aqueménidas às guerras anglo-afegãs -- e o cap. XXI, «O Afeganistão que eu conheci» (pp. 397-424) -- este um relato de reportagem em que MUR pôde narrar os acontecimentos enquanto repórter com uma profundidade a que o jornalismo normalmente não nos habitua. E mesmo a situação peculiar de MUR estar embedded -- como se costuma dizer -- no lado soviético e do governo de Cabul, e de se definir como comunista, revela probidade e só torna o relato mais claro para o leitor.

     Um livro fundamental. E, depois, não é qualquer um que escreve isto, a respeito de um texto do poeta e místico Sana'i, O Encaminhamento dos Humanos para o Encontro Supremo: «

    

     «Li esse poema em Kabul. Recordarei sempre essa noite. Explodiam mísseis na cidade e o zumbido das patrulhas aéreas era enervante. Mas esqueci tudo ao mergulhar no texto de Sanaí. Deixei até de prestar atenção às explosões. Inicialmente não fazia ideia do que era aquilo. Adquirira por acaso num alfarrabista uma publicação amarelada pelos anos que trazia na capa o rosto daquele poeta desconhecido.» (p. 224)

 

Miguel Urbano Rodrigues, Nómadas e Sedentários na Ásia Central, Campo das Letras, Porto, 1999.


13
Jun 11
publicado por RAA, às 03:34link do post | comentar | ver comentários (4)
«S. M.», de Joaquim Rodrigo -- ou uma ilustração possível das Aventuras do Capitão Galvão e o «Santa Liberdade».

Museu de Serralves

06
Jun 11
publicado por RAA, às 00:38link do post | comentar | ver comentários (3)

Galeria: «O Descanso do Cavaleiro», atribuído a Louis Le Nain (sécs. XVI-XVII). Ou a passagem do tempo no Antigo Regime.

Victoria & Albert Museum

17
Mai 11
publicado por RAA, às 17:52link do post | comentar
Galeria: «Concerto Campestre», de Giorgione (Museu do Louvre): a Renascença laica, yeah!...

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