letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
16
Nov 12
publicado por RAA, às 19:38link do post | comentar

* A Experiência é um romance de Ferreira de Castro, de certa forma secundarizado pelo próprio, ao metê-lo entre A Missão e O Senhor dos Navegantes (qualquer deles, novela e conto, já conheceram edições autónomas; A Experiênciatambém, mas... na Argentina). 

* Uma história comovente de duas crianças desvalidas, Januário e Clarinda, meninos de asilo que desembocarão na marginalidade: ele ladrão, ela prostituta.
* Primeira parte «ELE» -- I A Entrada: «A furgoneta deteve-se.» [o incipit].
* Um estilo de extrema ductilidade e simultaneamente de grande intensidade psicológica, ambas características do escritor, que vai refinando de livro para livro: «[...] ele não tinha mais de vinte anos, apesar dos seus olhos parecerem exaustos por não se sabia quantas madrugadas do princípio do Mundo.» / «[...] os seus olhos volviam teimosos, ilegais, à fachada, à praça [...]».
* A repetição, figura de estilo que caracteristicamente usou com mestria:  «Lá estava a praça larga e deserta, com um pequeno jardim na extremidade e o posto do correio, à esquerda. Lá estava a velha igreja que padroava o vale sobre o planalto -- lá estava.»
* Uma chegada à prisão, um guarda convincentemente neutro, duro mas sem agressividade. O outro, o que representa a autoridade, a farda, a repressão -- dificilmente um guarda prisional terá outra conotação... -- não é, contudo, desprovido da sua humanidade. Para Castro, houve uma circunstância que fez dele um carcereiro, como de Januário um gatuno.

27
Abr 12
publicado por RAA, às 13:00link do post | comentar | ver comentários (2)

Leio a Peregrinação do Fernão Mendes Pinto, publicada postumamente em 1614, anotada pelo historiador Neves Águas. Grande escrita, da melhor escrita, um incipit inesquecível, dos começos mais arrebatadores de uma narrativa -- porque já sabemos muito do que a seguir leremos:

«Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; [...]».

E fundamental para sabermos de que massa somos feitos,  nós portugueses, mas também brasileiros, portugueses à solta nos trópicos.

 

Releio Capitães da Areia, do Jorge Amado, publicado em 1937 e queimado em praça pública de Salvador, com todos os livros anteriores do autor, no ano seguinte. Trinta anos depois, verifico que se mantém o encantamento com que então o li. O humor, a poética, a empatia, a envergadura de romancista. Claro que detecto hoje alguns problemas ao nível do estilo, nem sempre cuidado; mas se não há arte sem estilística (e a de Jorge Amado é adequada , porque serve a narrativa em vez de ofuscá-la) -- se não há arte sem estilo, este é insuficiente quando o escritor não é profundo. As estantes das bibliotecas públicas e privadas estão pejadas de monos irrelevantes de autores celebrados pela elegância, monos que nem sequer sobreviveram a quem os escreveu. Não Amado, de quem já alguém disse ter sido o Balzac brasileiro, pela sua dimensão de criador de mundos. Ele será sempre o deus e semi do romance da nossa língua comum -- como Eça caracterizou o (seu) amado Dickens, «deus e semi», em carta a Ramalho ou Oliveira Martins, se bem me recordo, depois de ter chamado a Balzac «semi-deus»...

 

Ah!, e sempre, sempre, muita poesia e muita BD, todos os dias. Os quadradinhos, que permitem a ilusão momentânea da infância e juventude perdidas; a poesia (e a música e a pintura), que quotidianamente antecipa o fim que me espera, o nada a que estou destinado, eu e as paixões da minha vida.


31
Mar 12
publicado por RAA, às 03:11link do post | comentar
À superfície, um livro de histórias, de estórias, engraçadas umas, dramáticas outras; hilariantes muitas, trágicas também. Mas a genialidade de Jorge Amado neste largo conjunto de memórias para um livro que nunca escreverá, no limiar dos seus 80 anos, reside nisto: o que em muitos casos parece ser ligeiro, é, na verdade, um extraordinário repositório de humanidade. Todas as paixões estão aqui, o que não se estranha em quem soube erguer mundos com paixão viril, mais preocupado com a essência, com o sangue, e menos com as «merdolências» das literatices. E fazê-lo com a aparente simplicidade que nos leva a ler estas notas com a voluptuosa gula de quem vai retirando do cacho uva da melhor colheita, só os grandes autores o alcançam.


Ficha: Jorge Amado, Navegação de Cabotagem, Publicações Europa-América, Mem martins, 1992. 574 págs.


Incipit: As notas que compõem esta navegação de cabotagem (ai quão breve a navegação dos curtos anos de vida!), à proporção que me vinham à memória, começaram a ser postas no papel a partir de Janeiro de 1986. Zélia e eu nos encontrávamos num quarto de hotel em Nova Iorque, ambos com pneumonia -- ambos, parece incrível --, febre alta, ameaça de hospital.




18
Mar 12
publicado por RAA, às 23:16link do post | comentar
Um livro infelicíssimo, pura propaganda e da mais básica. Viagem à União Soviética e aos países das chamadas democracias populares. Louvores a Stálin, Jdanov e por aí fora. Muito mal escrito, também. Não parece um livro do Jorge Amado. Não há calor ou alegria; apenas sectarismo e acrítica ingenuidade. Felizmente, o autor retirou-o da lista das suas obras. É, aliás, elucidativo ler o que nas suas memórias, Navegação de Cabotagem (1992) diz a respeito desta obra e do "socialismo surreal" (como já alguém escreveu). Penoso e instrutivo.
ficha: Jorge Amado, O Mundo da Paz -- União Soviética e Democracias Populares, 4.ª edição, Rio de Janeiro, Editorial Vitória, 1953.
incipit: Na porta do pequeno hotel boêmio de Paris, em frente à Sorbonne, abraçamo-nos, entre risos, o romancista argentino Alfredo Varela e eu. Êle partia para o aeródromo de Le Bourget onde havia de tomar o avião para Praga, eu segui para o aeródromo de Orly -- o destino do meu avião era Mouscou. Ríamo-nos porque há cinco dias Varela saía todas as manhãs do hotel, num taxi, para o aeroporto e retornava ao meio dia. A névoa, como um lençol pesado e húmido sobre a cidade, impedia a partida dos aviões.

03
Mar 12
publicado por RAA, às 17:04link do post | comentar
Há cerca de 25 anos, em conversa com Franco Nogueira -- que antes de ser conhecido como ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar e, posteriormente, seu biógrafo, fora crítico literário --, o ex-embaixador deu-me a sua opinião sobre Jorge Amado: grande escritor a partir de Gabriela, Cravo e Canela, antes disso um panfletário. É verdade que Gabriela é um livro charneira. Militante do PC brasileiro, esse comprometimentos era evidente em livros como Seara Vermelha ou Os Subterrâneos da Liberdade ( último escrito em simultâneio com O Mundo da Paz, essa sim, uma obra de pura propaganda, de que falarei em breve).
Nunca li Os Subterrâneos, ao contrário de Seara Vermelha (ver aqui). Mas é para mim inegável que narrativas como Jubiabá, Mar Morto, Capitães da Areia ou Teras do Sem Fim são obras-primas da literatura comprometida e, só por si, fariam de Amado um autor de primeira grandeza.
O mesmo se passa a partir do referido Gabriela, Cravo e Canela, deste Dona Flor, de os Velhos Marinheiros ou Tenda dos Milagres, entre (muitos) outros. Para os admiradores do Jorge Amado escritor militante, este ter-se-ia aburguesado; para o dos escritor tout-court, o baiano subia um novo patamar na obra romanesca, igualmente artista, igualmente consciente da sociedade que era a sua, mas romancista mais encorpado e mais completo. É um engano pensar que o Jorge Amado de 30 e 40 é diferente do de 60 ou 70, no que respeita à elevada noção que tem do seu ofício de escritor. É, porém, um autor mais livre, menos espartilhado pela canga partidária de que felizmente se libertou.
Dona Flor e Seus Dois maridos (1966) nessa Baía de todos os santos, agora a pequena pátria de Caetano Veloso e Gilberto Gil, por um escritor que nunca foi engravatado, mas agora, menos que isso: é o Jorge Amado de bermudas e sandálias que, sem esquecer este mundo desequilibrado que é o nosso, celebra, com a morte do protagonista masculino, a alegria de se estar vivo.
incipit: Vadinho, o primeiro marido de D. Flor, morreu num domingo de Carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no Largo Dois de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de mais quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinham de um bar no Cabeça onde o whisky correra farto à custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário.
Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Publicações Europa-América, s.l., 1966.
Capa: desenho de Floriano Teixeira
1.ª edição portuguesa: 6000 ex.

19
Fev 12
publicado por RAA, às 23:26link do post | comentar
Escrito aos 20 anos, com todas as fragilidades e todas as qualidades dessa idade, o segundo livro de Jorge Amado. Nele já está todo o Amado, irónico, revolucionário, iconoclasta e grande amante da vida.
incipit: «As nuvens encheram o céu até que começou a cair uma chuva grossa. Nem uma nesga de azul. O vento sacudia as árvores e os homens seminus tremiam. Pingos de água rolavam das folhas e escorriam pelos homens. Só os burros pareciam não sentir a chuva. Mastigavam o capim que crescia em frente ao armazém. Apesar do temporal os homens continuavam o trabalho. Colodino perguntou:
-- Quantas arrobas você já desceu?»
ficha
autor: Jorge Amado (Itabuna, 10.VIII.1912 -- Salvador, 6.VIII.2001)
título: Cacau (1.ª edição, 1933)
fixação do texto: Paloma Amado e Pedro Costa
texto da badana: Eduardo Prado Coelho
colecção: «Bilbioteca Jorge Amado»
editora: Planeta DeAgostini
local: Lisboa
ano: 1999
págs.: 135
ilustrações: Santa Rosa
impressão: Cayfosa, Barcelona
obs.: no interior, retrato do autor por Jordão de Oliveira



14
Fev 12
publicado por RAA, às 23:54link do post | comentar
Uma das últimas diabruras de Jorge Amado, sub-subtitulado Os Esponsais de Adma.
Chegamos a velhos, e é isto: a mão segue a solo, com grande mestria, e nada mais importa.
Além da diversão do divertimento, aumentei a minha cultura geral: no "Capítulo da Perfeição" do Livro do Génesis, fico a saber que a obra-prima do Senhor se designa por "xoxota de chupeta", devidamente ilustrada pelo grande carybé no "Rondó das Bucetas"...
Incipit: «A acreditar-se nos historiadores ibéricos, sejam espanhóis sejam portugueses, a descoberta das Américas pelos turcos, que não são turcos coisíssima nenhua, são árabes de boa cepa, deu-se com grande atraso, em época relativamente recente, no século passado, não antes.»
autor: Jorge Amado 
título: A Descoberta da América pelos Turcos 
subtítulo: Ou de como o Árabe Jamil Bichara, Desbravador de Florestas, de Visita á Cidade de Itabuna para Dar Abasto ao Corpo, Ali Lhe Ofereceram Fortuna e Casamento
sub-subtítulo: Os Esponsais de Adma
colecção: Obras de Jorge Amado #26
editora: Publicações Europa-América
local: Mem Martins
ano: 1994
págs.: 158
impressão: Gráfica Europam, Mira Sintra

07
Fev 12
publicado por RAA, às 11:06link do post | comentar

 

 imagem

 

O nosso grande Eça de Queirós, em carta a um amigo, referia-se a Balzac como"semi-deus", e a Dickens como "Deus e semi"...

 

Tempos Difíceis,a Inglaterra vitoriana pouco glamorosa. 

Não foi o primeiro nem deverá ser o meu último Dickens, nascido há 200 anos, faz hoje.


24
Nov 11
publicado por RAA, às 01:19link do post | comentar

     Deste lado do Atlântico, e do outro também: não apenas a pessoite, mas também a claricite. Normalmente pega-se na adolescência, dá-se bem em gente de poucas letras e caracteriza-se por um estado relativamente prolongado de parvoíce. Em pequenas doses, são benignas (eu, por exemplo, padeço de castrite, doença rara; há quem padeça de saramaguite, de antunite, de helderite); houve, em tempos, quem sofresse de camilite aguda, e até de queirosite, enfermidade que persiste e que já me atacou por mais de uma vez. Como a raiva e a pólio, são patologias debeladas ou sob controlo. A aquilinite foi sempre outra doença rara. Algumas, não tão sintomáticas quanto a pessoite ou a claricite, apresentam-se em estádio intermédio: a eugenite e a torguite, creio que enfrentam alguns antibióticos; a florbelite, após um período de refluxo relativamente prolongado, recrudesce.

     


08
Out 11
publicado por RAA, às 03:48link do post | comentar | ver comentários (2)

Uma prosa elegante e uma tradução que a serve bem.  

Um livro programático, pretendendo combater a organização social estribada no poder paternal e o enclausuramento religioso, fautor de vício e desvio de personalidade.

Uma apologia da liberdade.

Um romance póstumo, escrito na Rússia de Catarina II.

Uma capa da Europa-América no seu pior, pelo oportunismo boçal e pela falta de gosto -- não desfazendo do objecto da fotografia, e não me estou a referir à cruz.

 

 

Denis Diderot, A Religiosa, tradução de Franco de Sousa, Mem Martins, Publicações Europa-América, s. d.; colecção «Livros de Bolso» #51.


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