letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
19
Nov 06
publicado por RAA, às 16:32link do post | comentar
Segunda-feira, 27-XI-1893.
18-- rue de la Sorbonne -- Paris
Ex.mo Senhor,
Há já alguns dias que cheguei a Paris e, se agora só venho ao pé de V. Ex.ª dar-lhe parte da minha chegada, é por só agora me achar restabelecido da minha dolorosa viagem. Levado pelo meu imprudente e herdado amor pelo mar, segui num pequeno vapor do Porto para o Havre, e no Canal da Mancha estive quase a ir ao fundo com uma tempestade do século XVI, como os seus olhos de historiador tantas têm visto. Sofri imenso. Hoje, tranquilo, venho dar a V. Ex.ª a minha adresse, como me disse da última vez que o visitei para pedir a V. Ex.ª a sua intervenção junto do Dr. Eduardo Prado: pedido que tomei a liberdade de lhe fazer sem que as nossas relações mo consentissem, é verdade, mas tendo apenas o estímulo da amizade que V. Ex.ª tem aos meus versos, o que me comove excepcionalmente por vir dum espírito que amo do coração e a que devo tanto. Espero me desculpará.
O Sr. Oliveira Martins, desse querido Portugal, disponha de mim, se dalguma coisa posso ser-lhe agradável neste País, agora tão lúgubre, sob a neve que está a cair.
Sou de V. Ex.ª, com a maior simpatia, muito admirador e dedicado criado,
António Nobre
In F. A. Oliveira Martins, Oliveira Martins e os Seus Contemporâneos

01
Out 06
publicado por RAA, às 17:29link do post | comentar | ver comentários (1)
Cascais 29 de Setembro 85

Meu caro Oliveira Martins
Há bastantes dias que estou com tenção de lhe escrever. Mas esta mofina vida de praias é esterilizador até para a epistolografia. De resto, tenho tido as Novidades quase sempre às minhas costas, o que é um verdadeiro pesadelo para a m.ª preguiça em vilegiatura. Enfim, passons au déluge!
Escrevi ao Navarro uma larga carta depois da conversa que tive em Lisboa com o meu amigo. A m.ª carta foi a Buarcos, cruzou-se com o Navarro no caminho, e só o veio apanhar de novo em Lisboa, onde ele esteve alguns dias. É claro que eu me referia à polémica entre a Província e o Popular, ao conflito inevitável criado por ele, e que lhe perguntava o que pensava a tal respeito.
O Navarro respondeu-me franco e claro. Não quer sacrificar-se pelo Mariano, mas não quer identificar-se com a guerra que lhe fazem. A sua fórmula foi esta: por ora só sei para onde não quero ir. O meu amigo compreende o caso; é para o José Luciano. Sabe também como eu penso a tal respeito, e percebe portanto a flutuação, a incerteza, a anódina reserva em que paira por isso a orientação das Novidades.
De resto não insisto em comunicar-lhe o meu modo de pensar pessoal sobre as coisas e os homens. O meu amigo de sobejo o conhece. Sabe também como eu admiro o seu talento, prezo o seu carácter e estimo a sua pessoa. Tenho fé em que a vida nova há-de afinal triunfar; mas a nossa suprema dificuldade, neste momento, além da febre de ganância que oblitera os carácteres políticos, é a pouca robustez do nosso bom e querido Braamcamp, sobre cuja morte descontam já as suas letras todos os magnates do partido progressista. Garantam ao Braamcamp dez anos de vida, e o partido une-se, porque se acaba com a luta de ambições, que internam.te o devora, e porque o futuro certo faz esvair todas as miragens de futuros imaginários.
Até para o nosso caso, o Navarro deixaria de ter um José Luciano de Damocles suspenso sobre a sua cabeça, como um eterno cauchemar, e havia de marchar mais direito e resoluto.
Como, porém, não é possível fazer um contrato com o Criador relativamente à vida do nosso insubstituível chefe, resta ir boiando nestas águas turvas, em que vários pescam negócios, enquanto nós só apanhamos sensaborias no nosso anzol.
Escreva-me o meu amigo sempre que puder, na certeza de que as suas cartas são sempre m.to apreciadaspor quem é deveras
Seu am.º e adm.or certo
Carlos Lobo d'Ávila
P. S. Recados ao Barros e ao Luís. É inútil que eu diga que esta carta é só para nós. Falo-lhe como a um amigo, em quem muito se confia.
In F. A. Oliveira Martins, D. Carlos I e os «Vencidos da Vida»

21
Ago 05
publicado por RAA, às 16:13link do post | comentar
S.ta Eufémia, 14 de Setembro de 1870
Meu caro Enes
Há muito devia ter-te escrito, mas muito trabalho primeiro, minha mulher doente depois, e por fim 10 dias de sezões, tiraram-me o lugar. Parece-me que não há que dizer.
Agora de mim vou bem, e com a aproximação do inverno tudo melhora. Os campos viçam, rebenta a água por toda a parte. A água! a água é a grande animadora nestas regiões torradas de sol durante uns poucos de meses. Isto é uma serra, e nisto digo tudo. Sinto uma liberdade ampla de acção e de pensamento. Acho que vou dar em caçador. Há gamos, perdizes e javardos por estes montes. Folgo de ter vindo aqui: oxalá eu assim pudesse ter comigo quantos desejara!
Sou uma espécie de rei, entre os 300 ou 400 mineiros: foram-se todas as veleidades republicanas... aqui.
Escreve-me, adeus meu caro amigo.
Crê-me teu am.º verd.º
J. P. Oliveira Martins
Correspondência
(edição de Francisco d'Assis Oliveira Martins)

mais sobre mim
Novembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

15


25
26
27
28
29
30


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO