letras, sons, imagens -- revolução & conservação -- ironia & sarcasmo -- humor mau e bom -- continua preguiçoso
04
Jun 11
publicado por RAA, às 23:57link do post | comentar
ODE À ÁFRICA

Eu sei das matas onde o pé humano
É como um espanto para a terra nunca semeada
E sei dos bosques sagrados onde o latim
Jamais penetra para dar um nome às árvores.
Esta é a terra prometida à derradeira
Estação dos deuses no nosso planeta
Terra do início da era da máquina
Ainda fresca do húmido sopro da criação
Com rios e afluentes da palavra fácil
E nervação abertamente fecunda.
Floresce o raciocínio como um olfacto
Mais apurado a expensas do instinto
Esbanjam os espaços seu pródigo rasgo
No grito sem luxo das orquídeas selvagens
Talvez de novo as palavras eu desperte
Limpas de barro e enxutas de antigo.
Meu passo busca não a ária dos pastores
Com poemas ao bom-senso dos rouxinóis
Mas esta luz lançada como um harpão
À misteriosa substância do futuro.
Minha poesia é aqui: onde o espaço
Ainda não se cansou do rosto humano
Onde as palavras antes da moeda inventada
São a permuta da água pelo ouro.

No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)

25
Mar 11
publicado por RAA, às 20:00link do post | comentar


A TERRA TREME

IV

A terra toda tremendo
na primeira explosão

os homens
sentindo o mundo fechar-se

correndo
buscando o sol

e não encontrando senão
a Companhia

corvo enorme lançando sua sombra

cobrindo o sol com suas asas

na voz repetindo

Continuem
É necessário continuar
É necessário
regressar ao fundo da mina

Depois

Outra explosão

Os homens correndo
a terra tremendo

Os homens caindo
nas galerias a desmoronar-se
os corpos torcendo-se
nos gases e nas pedras de carvão

esperanças
de um mundo onde viver
perdidas na poeira da mina

Homens morrendo

Homens negros

No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)

10
Fev 11
publicado por RAA, às 22:56link do post | comentar | ver comentários (2)
PRIMAVERA DE BALAS

Agarro
Na minha última humilhação
E sem ir embora da minha terra
Emigro para o Norte de moçambique
Com uma primavera de balas ao ombro.

E lá
No Norte almoço raízes
Bebo restos de chuva onde bebem os bichos
No descanso em vez da minha primavera de balas
Pego no cabo da minha primavera de milhos
e faço machamba ou se for preciso
Rastejar sobre os cotovelos
E os joelhos 
Rastejo.

Depois

Escondido em posição no meio do mato
Com a minha primavera de balas apontada
Faço desabrochar no dólman do sr. Capitão
As mais vermelhas flores florindo
O duro preço da nossa bela
Liberdade reconquistada
Aos tiros!

in No Reino de Caliban III
(edição de Manuel Ferreira)


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